Lourival Rodrigues da Silva
Síntese do texto “A Construção Social da Juventude” - Lydia Alpizar eMarina Bernal. In:
Mulheres Jovens e Direitos Humanos. Manual de Capacitação em direitos humanos das mulheres jovens e a aplicação da CEDAW. EDLAC, Edição Brasileira, São Paulo. 2004.
Este é um texto com referencias feministas que trabalha com a corrente construtivista que se preocupa com a construção social da realidade – Tendo como perspectivas a questão de gênero, a etnia e as preferências sexuais e afetivas. As autoras defendem que a sociedade cria noções e conceitos que definem as pessoas, as situam em determinados lugares. – essa determinação diferencia a capacidade de decisão, autonomia e desenvolvimento. Nessa visão construtivista a pessoa deve ser ativa, dotada de potencialidades, capacidade para transformar, desconstruir e construir novas explicações sobre si e o mundo;
O artigo defende que a juventude foi explicada e entendida através das instituições: Igreja, Estado, Família, Escola e os meios de comunicação, acadêmicos e outros são fontes de produção e reprodução de discursos sobre a juventude. Destacando que o conhecimento cientifico legitimou as práticas e mecanismos de controle das pessoas jovens. Esse controle atua através da pesquisa como caminho para definir as relações de poder sobre os jovens. Afirma que as teorias sobre juventude estão carregadas de visões sobre o ser humano, a política, economia, e realidade social.
Visão psico-biológico
1. Vê a juventude como etapa do desenvolvimento psico-biológico. Cita Hall que tem a adolescência como transição dominada pela angustia, confusão e alterações psíquicas. Ana Freud que diz ser necessário fazer um controle dos impulsos da sexualidade do adolescente. Esta visão definiram a juventude como fenômeno universal: mudanças físicas, psicológicas, rebelião com a família de origem. Trazendo também Aberásturi que diz que a adolescência é período de contradições, confusão, dor e atritos com a família. Essas visões levam a um imaginário dos jovens como problema, etapa de crise, patologia e momento de risco ou perigo. Resultado da corrente positivista e funcionalista: onde o ser humano deve se desenvolver, a partir das suas condições físicas, hormonais... São essas condições que define se a juventude é normal ou anormal.
Visão da juventude como integração social
1. Entende que a juventude deve: adquirir valores, habilidades para a vida adulta integrada e produtiva. Para Erikson a adolescência é momento de aprendizagem, potencial de desenvolvimento e integração. Tendo a moratória – tempo permitido para, e defendendo ainda que as questões emocionais é que definem as identidades juvenis e que a escola, a família e o trabalho estão organizados para que os jovens possam adquirir esse status e se ajustar no padrão. Nesta corrente existem diversas formas de abordagem sobre a temática juvenil: sociológica – cultura juvenil, tribos urbanas, psicologia do desenvolvimento, jurídica, antropológica (jovens marginalizados com dificuldade de integração social, delinqüentes, pobres, negros...). muitas destas visões resultaram em políticas de readaptação social juvenil, de prevenção da delinqüência, de legislação, de ações repressivas, sustentadas por tipologias discriminatórias em relação: a raça, classes, escolaridade.
Visão do jovem como agente de mudança
1. Segundo as autoras, essa linha traz uma visão idealista dos jovens e que delega e deposita nos jovens as responsabilidade de mudanças dos problemas e que a juventude seja portadora do futuro. A juventude dos anos 60 foi uma tradução dessa visão. Onde se pedia que a juventude fosse rebeldia, revolução, ativismo, contestação, questionamentos da cultura dominante.
Visão da juventude como problema de desenvolvimento
1. Visão vinculada às políticas publica de juventude como problema de desenvolvimento: desemprego, consumo de drogas, gravidez na adolescência, migração, baixa educação, casamento. Tem como finalidade integrar os jovens na sociedade.
Juventude e gerações
1. Situa os jovens a partir de acontecimentos históricos significativos em uma época e que pode ser comparada com outra época. Daí certos conceitos distorcidos: geração pedida, geração X, geração cética, geração da rede. Atribuem aspectos homogeneizadores características comuns a todos que formam uma mesma geração do momento.
Juventude como construção Sócio-cultural
1. Parte da idéia de que a identidade juvenil resulta de processos de construção sócio-cultural como expressão dos jovens. Combinam análises das relações de poder entre o gênero, sexualidade, raça e idade. Valenzuela fala da condição juvenil como categoria, como construção sócio-cultural historicamente definida, situadas, com caráter mutável e transitório de disputa e negociação da representação dos jovens. Em sua construção as identidades incluem autopercepções, símbolos de pertencimento. Carlos Feixe trabalha na perspectiva das culturas juvenis como experiências coletivas dos jovens a partir de estilos construídos no tempo livre ou institucional. Segundo ele a juventude é vista na sociedade como processo de emancipação da família e construção da identidade própria firmada pelo trabalho.
ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DESSES DISCURSOS
Nenhuma instituição social produz um discurso neutro sobre juventude. Todos levam, implícitos, diversos elementos valorativos sobre a população jovem.
Esses discursos institucionais disputam o privilégio de definir a juventude, através do estabelecimento de critérios do "dever ser" das pessoas jovens.
Os discursos das diferentes instituições se relacionam, se complementam e, freqüentemente, são contraditórios entre si.
Essas contradições estão presentes, também, na forma como as pessoas jovens, concretas, vivem suas juventudes e vêm a si mesmas.
Esses discursos implicam sobre as juventudes pelo fato de serem vítimas de violência como método corretivo, de abuso, no âmbito do trabalho, por serem sub-contratadas e mal pagas.
Limitação na definição de seus estilos de vida, no exercício de seus direitos e da participação nos processos de tomada de decisões.
Intolerância e a incompreensão produzida pelas instituições diante das diferentes expressões juvenis, pois essas são interpretadas como ameaça.
Discriminação e na violência que são legitimadas como mecanismos "necessários" de controle das pessoas jovens.
QUE CARACTERÍSTICAS POSSUEM TAIS PERSPECTIVAS?
São homogeneizadoras: Assumem que as pessoas jovens têm características, necessidades, visões ou condições de vida iguais e, portanto, homogêneas.
São estigmatizadoras: A partir de certos estereótipos e preconceitos estigmatizam as pessoas consideradas como jovens, ou "certos tipos de jovens", impondo-lhes aspectos freqüentemente considerados negativos.
São adultocêntricas: Em uma cultura adultocêntrica o poder e muitos recursos relacionados com a condução da vida social estão centrados nas pessoas adultas médias, por esse motivo estão em uma situação de dominação com relação aos demais: crianças, jovens e, inclusive, pessoas adultas idosas.
O parâmetro de validade de muitas ações dirigidas à população jovem ou as próprias ações realizadas pelos e pelas jovens são legitimadas a partir do mundo adulto.
A PERSPECTIVA DE CONSTRUÇÃO SOCIAL
Nas últimas décadas vem sendo realizada uma leitura histórico-critica das perspectivas "tradicionais" sobre a juventude, recuperando a experiência de outras populações que enfrentam diferentes condições de marginalização, tais como: as mulheres, as pessoas afrodescendentes, os povos indígenas, lésbicas e gays, entre outros.
Essa leitura marca-se por uma visão: compreender que o gênero, a juventude, a etnia, a orientação sexo-afetiva, entre outras, implicam condições sociais que não são "naturais" ou estáticas, mas sim construções sociais.
PERSPECTIVA DE CONSTRUÇÃO SOCIAL SOBRE JUVENTUDE
Que a juventude é produto da interação entre as condições sociais e as imagens culturais que cada sociedade elabora, em cada momento histórico, sobre esse grupo social.
Que a juventude não é algo "natural", estático, não é algo dado, mas que permanentemente está sendo construído e reconstruído historicamente.
Que cada sociedade define "a juventude" a partir de seus próprios parâmetros culturais, sociais, políticos e econômicos.
Assim, não há uma definição única do que é a juventude e, portanto, as perspectivas tradicionais e os discursos institucionais sobre a juventude podem ser transformados, podem ser desconstruídos e reconstruídos.
Tais identidades são produto de uma tensão permanente entre as representações dominantes sobre o que "deve ser" a juventude, produzidas de fora da perspectiva jovem e aquelas elaboradas pelas próprias jovens. São modificáveis, transitórias e construídas dentro de redes de relações de poder.
CONCEITOS CENTRAIS NESTA PERSPECTIVA:
Não há "JUVENTUDE", mas "JUVENTUDES": ou seja, um grupo social que pode ser categorizado a partir de diferentes variáveis (demográficas, econômicas, culturais, etc.);
Entende-se como "JUVENIL" as produções culturais e contra-culturais que estes grupos sociais desenvolvem ou inibem em sua cotidianidade (também são conhecidas como culturas juvenis).
AS IDENTIDADES JUVENIS são marcos simbólicos pré-existentes e já existentes que permitem que as e os jovens se reconheçam e se façam reconhecer como diferentes dos outros. Tem uma duração fixada no tempo e no espaço e varia em cada cultura e em cada época.
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