Lourival Rodrigues da Silva
A compreensão da modernidade e da pós-modernidade, possibilita uma ampliação dos conceitos e características que interferem na questão da crise de paradigma na qual vive a atual sociedade. Possibilitando visualizar as diferentes matrizes que prepararam o terreno das mudanças que o mundo vem enfrentado, permitindo uma compreensão da modernidade e da pós-modernidade com suas influências, causas e conseqüências.
A Cristandade
Para falar da modernidade é necessário buscar o que existia antes e o que orientava a vida das pessoas e da sociedade. Antes da modernidade a humanidade viveu o tempo chamado de Idade Média. Nela predominava o sistema feudal, que era sustentado nas estruturas político-religiosas: reis, clero, nobreza e povo. A sua economia se firmava nas terras e nos ofícios dos artesãos. Esse período da humanidade é entendido como Cristandade.
A Cristandade teve como base de orientação o pensamento filosófico único do teocentrismo. Quer dizer: a centralidade de Deus na visão da vida, sociedade e do cosmos. Deus era a referência máxima de valor, e todas as manifestações que estivessem fora destes limites eram reprimidas. Para José Comblin a cristandade é marcada pela mistura do discurso das elites dirigentes para a nobreza e para as massas dos camponeses, o discurso do clero monástico ou secular. Esses discursos sustentavam as classes sociais da cristandade e o poder pertencia, sobretudo, à nobreza e ao clero (COMBLIN, 1986, p. 122).
O autor afirma que a cristandade continuou até a Revolução Francesa. Segundo ele os discursos da cristandade “continuou sendo, por muito tempo, o linguajar do clero, mesmo nos lugares em que a cristandade já tinha praticamente desaparecido. Ainda hoje muitos discursos do clero retomam os temas da antiga cristandade” (COMBLIN, 1986, p. 123).
Nos discursos da cristandade, a pessoa é cristã sem ter feito escolha, “é cristã pelo fato de pertencer à sociedade à qual pertence. Deixar de ser cristão é cortar os laços sociais. Na cristandade, para ser cidadão é preciso ser cristão” (COMBLIN, 1986, p. 125). “Quem falava de Deus, falava para a sociedade toda e não apenas para uma pequena elite espiritual” (COMBLIN, 1986, p. 145). Para o autor, na cristandade medieval havia uma só palavra, um só discurso imposto como uma “verdade” particular, como “verdade” geral.
Desta maneira a cristandade se firmou como algo natural, dado. Pablo Richard define a cristandade de forma ampla afirmando que “em um regime de cristandade a Igreja procura assegurar sua presença e expandir seu poder na sociedade, utilizando, antes de tudo a mediação do Estado” (RICHARD, 1984, p. 09).
É por isso que os chefes da igreja e do Estado legitimavam-se no modelo de sociedade da época. Para Comblin, o discurso da cristandade era sustentado pelos reis e demais chefes do povo que estavam a serviço da Igreja. O povo devia-lhes obediência, como se obedecia a Deus. Assim a cristandade se achava imutável, a última etapa na história do mundo, considerada a maior perfeição na terra (COMBLIN, 1986, p. 145).
A promessa central da Cristandade foi a de que a felicidade só seria alcançada após a morte, no paraíso. A modernidade mudou essa visão cristã. Por essas razões que se acredita que dentro da própria cristandade nasceu a “cultura moderna, com um discurso que se apresentou como rival e sucessor do cristianismo” (COMBLIN, 1986, p. 204).
A Modernidade
Como foi visto anteriormente a modernidade nasce do rompimento com a tradição, com os modelos de conduta e autoridades que eram sustentadas pela tradição e pela religião e que foram perdendo seu caráter de cosmovisão global e única.
Na busca de conceituar esse paradigma Anthony Giddens defende que a “modernidade refere-se a estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII” (GIDDENS, 1991, p. 11).
Já Alain Touraine defende também que a modernidade surgiu pela capacidade dos indivíduos romperem com a Cristandade. Diz ele que a modernidade:
Definiu-se como o contrário de uma construção cultural, com a revelação de uma realidade objetiva. A modernidade é a antitradição, a derrubada das convenções, dos costumes e das crenças, a saída dos particularismos e a entrada no universalismo, ou ainda a saída do estado natural e a entrada na idade da razão (TOURAINE, 1995, p. 118).
O surgimento da modernidade está marcado também pela constituição de um novo pensamento do grupo chamado de modernista. Segundo Comblin, os modernistas pensavam que:
Iam oferecer ao mundo uma forma superior de viver, uma humanidade realmente superior a tudo o que se tinha vivido anteriormente. Para os cristãos essa visão era blasfêmia. Ela destruía toda a pretensão cristã de ser a última idade do mundo, a fase mais adiantada da história humana, o ponto mais alto do ser humano (COMBLIN, 1986, p. 204).
Um outro fator que possibilitou o surgimento da modernidade foi o deslocamento do poder religioso, para o poder profano, o que provocou a dissolução da unidade religiosa e fez aparecer a formação de novos princípios de organização de caráter nacional. Ocorreu também o crescimento de outras visões sobre o cosmos, o que levou a religião a ficar reduzida a uma particularidade (ZAMORA, 2004, p. 02).
Nos conceitos trazidos pelos autores sobre a modernidade é possível perceber algumas recorrências: a modernidade é uma mudança na visão e compreensão do mundo, que estavam condicionadas ao aspecto religioso.
A modernidade trouxe consigo um discurso carregado de promessas e com nele surge a classe burguesa, com uma nova concepção de realidade social. No novo discurso o sacerdote perdeu o monopólio da palavra pois antes “eu falava sozinho, agora tem mais gente falando também” e mais ainda foi substituído pelo intelectual, o que significa agora “outro fala em meu lugar”. Assim surge o discurso moderno fundamentado na vida individual e na ação das “classes dos intelectuais. Estas são as que passam articular a sociedade moderna” (COMBLIN, 1986, p. 204).
Emerge, assim, a universalidade de um discurso centrado nos seguintes princípios: razão, felicidade, liberdade e mercado. “Na modernidade tudo gira ao redor desses temas” (COMBLIN, 1986, p. 204). Para Comblin, na razão, o homem se conhece a partir de si próprio e se opõe a costumes, tradições, preconceitos, autoridade, intuição, instinto e sentimento.
Quatros foram as principais promessas da pós-modernidade: razão, felicidade, liberdade e mercado. A seguir uma breve síntese de cada uma destas.
A idéia de razão foi encarnada no Estado que passou a se apresentar como entidade política dos cidadãos ativos com capacidade de se auto-organizarem a partir de um conjunto de direitos civis, políticos e sociais. Assim, a razão passa a ser a centralidade e se torna uma conquista moderna. Ela permite que a pessoa submeta tudo ao conhecimento e só aceite o que passou pela experimentação.
A razão deu origem a racionalização científica, outro fator que também contribuiu significativamente para o surgimento da modernidade, em que a imagem do mundo passou a ser fundamentada em observações controladas, repetidas e quantificadas de maneira objetiva. Surge daí a imagem de mundo desencantado, a partir da separação entre o real (objetivo) e o desejado (imaginado) pela subjetividade humana.
O segundo princípio que vai dar sustentação à modernidade, para Comblin, é a idéia de felicidade. Para ele a felicidade ocorre quando o homem pode satisfazer as suas necessidades vitais em primeiro lugar e, depois, os seus outros desejos: “biológicos, psicológicos, sociais, consumo, movimento, atividade corporal e mental, produção material e cultural, amor, sociabilidade, paz” (COMBLIN, 1986, p. 209).
O autor afirma que esse discurso aparece como uma mensagem que chama o individuo a se libertar das estruturas que o impediram de desenvolver a sua personalidade, propondo o desenvolvimento completo das virtudes humanas: viver bem, gozar de tudo, sem limites e culpabilidades.
Para Comblin, trata-se de:
Um apelo à emancipação de todas as formas de constrangimento que o sujeito experimenta em si mesmo: tabus, medos de viver ou agir, temor ante as forças do mundo, temor ante o desconhecido, angústia sem motivo. A modernidade desfaz os “complexos”, oferece a realidade inteira como aberta, disponível, sem restrições (COMBLIN, 1986, p. 209).
Junta-se à idéia de liberdade os conceitos de cidadania, dignidade individual que possibilitaram uma subjetividade focada no individuo. Surge o sujeito capaz de criar suas leis e soberania. Essa felicidade é uma proposta de emancipação de muitas dependências: mulheres, trabalhadores, das classes exploradas. Passa a ser um discurso que permite rebelar-se contra a idéia de sacrifício.
Para Comblin no discurso da modernidade a felicidade está à disposição do homem, para que este não viva em função do outro. Ela é resultado de conquista de várias lutas: família, clã, tribos. Segundo o autor, nasce da luta contra as exigências de solidariedade do grupo. É uma conquista contra os privilégios das classes dos nobres, dos proprietários.
Por isso que Zygmunt Bauman defende que a modernidade penetrou na consciência coletiva, modelou o pensamento e que, assim, reflete a cultura da beleza, da limpeza e da ordem. Para o autor, essa modernidade pensou a si mesma como uma atividade da cultura ou civilização (BAUMAM, 1997, p. 07).
Outro fator que vai dar sustentabilidade à modernidade é a idéia de mercado como regulador das relações sociais que se dão através da divisão social do trabalho, fundamentada no princípio da propriedade privada e na inclinação do homem para a satisfação de suas necessidade e na competição entre os interesses individuais e coletivos (ZAMORA, 2004, p. 03).
Para Boaventura Sousa Santos, a modernidade, é um projeto muito rico, capaz de infinitas possibilidades e, como tal, se torna muito complexo e sujeito a desenvolvimentos contraditórios. A modernidade se fundamentou também sobre o pilar da regulação, com o princípio do Estado e da comunidade a partir da concepção de emancipação, com a racionalidade expressiva da arte e da literatura, da moral e do direito, e da ciência da técnica (SANTOS, 2003, p. 76).
A promessa de realização humana, de felicidade, liberdade e da possibilidade de acesso em igualdade de condição a tudo que a sociedade poderia oferecer. Criou uma individualidade nas pessoas, transformando-as em agente, responsáveis e autores de seus sonhos, desejos e democracia. A sociedade aceitou essas promessas como escolha, para uma nova forma de produção, de consumo, comunicação e assim ela passou a se identificar com o espírito da livre iniciativa.
Propunha-se uma melhor qualidade das formas de vida para a pessoa, a ecologia, a paz, a solidariedade internacional, a igualdade de relações, a democratização política, a democratização radical da vida pessoal e coletiva, o alargamento do campo da emancipação via democracia representativa e a democracia participativa.
Para Boaventura o projeto da modernidade é ambicioso, revolucionário, com possibilidades muito amplas e, por serem amplas, são excessivas e difíceis de serem cumpridas (SANTOS, 2003, p. 78). O autor aponta como conseqüência da não realização desse paradigma o surgimento de sinais evidentes de crise, pois não se confirmava o brilho prometido da ciência, com soluções privilegiadas para a vida social e individual.
Bauman defende que “os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual” (BAUMAN, 1997, p. 10). Para o autor o sonho foi abandonado e não realizada a expectativa de suprir as desigualdades sociais geradas, de garantir ao indivíduo humano possibilidades iguais de acesso a tudo de bom e desejável que a sociedade pode oferecer (BAUMAN, 1997, p. 195).
Para Helmut Thielen, a crise da modernidade tem sua gravidade na economia capitalista porque se firmou nas características centrais da exploração da mão-de-obra, na desvinculação da economia capitalista e da sociedade civil. Essa concepção econômico-sócio-política gerou uma crise de desigualdade social, que causou o aumento da miséria social, com impacto sobre as questões econômicas, ambientais e que, por fim, resultou na dependência do chamado “Terceiro Mundo” (THIELEN, 1998, P. 19).
Cristián Parker afirma que “há um desencanto crescente das massas populares em relação às promessas de salvação secular que provinham da classe política, tanto tradicional como revolucionária” (PARKER, 1996, p. 333).
O não cumprimento das promessas da modernidade tem gerado uma sensação de perda, de fragmentação, o que levou a um esvaziamento dos grandes relatos produtores de sentido. Hoje já se percebe uma tentativa de volta às questões da religião, do papel do Estado, da dimensão da emancipação da pessoa e da relação da natureza com o homem.
Pós-modernidade
Na segunda metade século XX aconteceram uma serie de transformações que provocaram um horizonte além da modernidade. Essa fase de transição para muitos se caracterizaria pela “sociedade de informação” ou a “sociedade de consumo”. Esse contexto apontou para eventos inovadores que ainda hoje fogem ao entendimento completo e a qualquer controle.
Estaria nestas transformações o surgimento do paradigma da Pós-modernidade que segundo Moreira, se baseia no fim das grandes narrativas, também denominadas de pós-modernismo.
Pós-modernismo é aquilo que teorizado e expresso nas diferentes orientações científicas e artísticas, constituindo um indicador de práticas mais amplas de uma cultura pós-moderna, consumo e circulação de bens e práticas culturais. Tais tendências teriam assumido proporções epocais e de civilização e assinalariam um movimento em direção à pós-modernidade (MOREIRA, 2004, p. 02).
O certo é que no interior da literatura, das artes plásticas e da arquitetura, se espalhou o sentimento que passou a definir o movimento da estética e o estilo de vida. Assim o termo pós-modernidade passa a ficar mais marcado pela reformulação de todas as referências construídas anteriormente pela modernidade. Esse termo, porém não é consenso entre os teóricos.
Plínio Freire Gomes diz que “a vertigem que chamamos de pós-modenidade está associada a um duplo fenômeno: o advento da velocidade e a internacionalização das relações econômicas” (GOMES, 2002, p. 01). Este autor defende que esse é um processo paradoxal situado entre a degradação das idéias da modernidade e as inovações que estariam em pleno andamento com as novas relações (pessoais, mercadológica, cultural, religiosa). Essas transformações têm contagiado inúmeras tradições artistas, culturais e intelectuais.
Giddens chega a defender que “não basta inventar novos termos, como pós-modernidade e o resto” (GIDDENS, 1991, p. 11). Para ele a sociedade ainda não entrou na pós-modernidade, sendo que a modernidade está se radicalizando. Afirma que a sociedade está vivendo uma fase de radicalização, provocada pelo declínio da hegemonia européia, que facilitou a criação de civilizações regionalizadas em outras partes do mundo.
O termo pós-modernidade é, assim fruto do desenvolvimento administrativo, industrial, da complexidade política e econômica. O termo seria resultado da dificuldade das “ciências sociais em mapear o universo cultural da desintegração do mundo tradicional” (MOREIRA, 2004, p. 01).
Os diversos autores, mesmo não concordando com o termo pós-modernidade, apontam que as mudanças provocadas pelos desenvolvimentos acontecidos nos últimos anos apresentam conseqüências, como o surgimento de novas organizações sociais divergentes das criadas pelas instituições modernas.
Na falta de consenso sobre o que está acontecendo com a modernidade, a pós-modernidade, ou modernidade tardia, alguns autores preferem denominar esse momento de “A nova cultura” ou “cultura atual”. O certo é que é necessário considerar que estas questões fazem parte do dia-a-dia e que também são fruto da ampliação sofrida pelo mundo, agora entendida globalmente.
Globalização
Não há como negar que o desenvolvimento tecnológico é um dos grandes contribuidores para que o mundo fosse compreendido para além do continente europeu. Começando pelas navegações mercantilistas, passando pela Revolução Industrial até as infinitas possibilidades atuais da comunicação. Todos esses aspectos tiveram um papel definitivo na forma de ver e se relacionar dos diferentes países. “Nos últimos vinte e cinco anos, acumularam-se mais conhecimentos tecnológicos do que em toda a história da humanidade” (DOWBOR, 2000, p. 10).
Dadas as transformações geo-históricas em curso no século XX, são bastante evidentes os desenvolvimentos da transnacionalização, mundialização ou, mais propriamente, globalização. São transformações que não só atravessam a nação e região, como conformam uma realidade geo-histórica de envergadura global (IANNI, 2000, p. 17).
Otavio Ianni afirma que a visão do mundo passa ser compreendida por várias metáforas que se combinam entre si:
Economia-mundo”, “sistema-mundo”, “Shopping center global”, “Disneylândia global”, “nova visão internacional do trabalho”, “moeda global”, “capitalismo global”, mundo sem fronteiras”, “tecnocosmo”, “planeta Terra”, “desterritorização”, “miniaturização”, “hegemonia global”, “fim da geografia”, “fim da história” e outras mais (IANNI, 2000, p. 16).
Para o autor cada uma dessas visões possui um ângulo de argumentação e análises que priorizam os aspectos econômicos, político, geográfico, histórico, cultural, religioso, lingüística entre outras. Na perspectiva de Ianni não se pode negar a existência da formação de uma comunidade mundial com várias possibilidades diferentes e com instrumentos diversos de comunicação eletrônica avançada (IANNI, 2000, p. 16). Essas tecnologias permitem que se desloque de um ponto a outro com muita facilidade. Esse cenário de mudanças sobre a visão do mundo é que vai possibilitar o surgimento do paradigma da globalização.
A globalização passou a ser um paradigma recorrente para o entendimento da modernidade, se tornando referência para as questões econômicas, culturais, sociais e religiosas. Enzo Pace conceitua a globalização como “processo objetivo de progressiva independência nas diferentes sociedades humanas espalhadas pelo planeta” (PACE, 1999, p. 25).
Para melhor entender as características da globalização será feita a seguir uma breve abordagem de dois aspectos que a caracteriza: o primeiro relacionado com as questões econômicas e sociais e o segundo, com as questões culturais e simbólicas.
No tocante aos aspectos econômicos e sociais, a globalização pode ser vista também como produção, distribuição de bens e de serviços, na perspectiva da expansão da economia de mercado e do consumo. É a possibilidade de o capital se expandir e se acumular. Uma das características desta globalização mercadológica seria o surgimento de “uma massa popular consumidora sensível a mensagens globais” (MOREIRA, 1996. P. 2).
A globalização se pautaria então, em uma unidade planetária a partir das questões econômicas direcionadas ao mercado de consumo. O mercado capitalista funciona sobre as bases de seu próprio ritual sacrificial, com suas próprias vítimas, imoladas aos deuses do mercado, ritual operado pelos novos sacerdotes do templo-mercado e legitimados pelos novos “sábios” e “profetas” do mercado e da sociedade de consumo (PARKER, 1996, p. 341).
O aspecto econômico, com a globalização, ganha relevância especialmente com o aumento das grandes corporações, com transnacionalização do capital: “toda economia nacional, seja qual for, torna-se província da economia global” (IANNI, 2000, p. 18).
Dentro da idéia da globalização um dos pilares de sua sustentação é a visão da economia global, que Octavio Ianni apontou da seguinte forma:
Além das mercadorias convencionais, empacotam e vendem-se as informações. Estas são fabricadas como mercadorias e comercializadas em escala mundial. As informações e entretenimento e as idéias são produzidos, comercializados e consumidos como mercadorias (IANNI, 2000, p. 16).
Nos aspectos culturais e simbólicos está fala se de “indústria cultural” , que revive, as fantasias simbólicas e rituais da magia e do mistério, que passam a funcionar para a lógica da troca. A globalização está relacionada também com as questões culturais e simbólicas que interferem na identidade e no modo de ser dos diferentes povos.
Esse processo é reforçado com a concentração e fusão de empresas e capitais que oferecem informação, entretenimento, atividades culturais, música, cinema, shows, revista, esporte e lazer. A globalização, com esses instrumentos, faz uma aproximação das fronteiras, dos sistemas simbólicos e leva à homogeneização dos gostos e comportamentos (MOREIRA, 1996, P. 5).
Como resultado dessa visão ampliou-se o contato com outras culturas e a difusão de bens culturais e ideológicos, com a criação de marcas mundiais e estilos de vida. Essas novidades são fruto do desenvolvimento e dos avanços tecnológicos recentes, que ampliaram e mundializaram a economia e a cultura. A globalização possibilitou uma consciência global, planetária, nos indivíduos e nas sociedades do mundo.
Assim consolida-se a sensação de que todos fazem parte de um mesmo globo e de uma sociedade civil planetária, que se caracteriza pela ultramodernidade que faz surgir um conjunto de não lugares (o metrô, os aeroportos, grandes centros comerciais) da multiplicação das zonas francas, nas quais diferentes culturas se encontram. Aparecem novos lugares simbólicos, onde cada um pode consumir coisas de diversos lugares e significados.
A globalização, segundo Octavio Ianni, tem sido vista como abertura de fronteiras e geração de espaço comum e que, assim, o planeta se encolheu e qualquer pessoa ou lugar pode ser alcançado através do teclado do telefone, da televisão ou do computador (IANNI, 2000, p. 07).
Desse modo a globalização trouxe consigo algumas conseqüências tais como o crescente processo de desculturalização, que leva à perda de identidade cultural e da capacidade de identificação simbólica com coisas e lugares. É essa identificação que faz com que a pessoa se sinta diferente do outro, através da qual ela pode vir a negar a si ou se tornar o outro.
A globalização é um processo de decomposição e recomposição da identidade individual e coletiva que fragiliza os limites simbólicos dos sistemas de crença e pertencimento. A conseqüência é o aparecimento de uma dupla tendência: ou a abertura à mestiçagem cultural ou o refúgio em universos simbólicos que permitem continuar imaginando unida, coerente e compacta uma realidade social profundamente diferenciada e fragmentada (PACE. 1999, p. 32).
Pace diz que o paradigma da globalização possibilita entender como se dão os processos de dominação de uma sociedade sobre as outras. Seria uma nova forma de colonização moderna das consciências, imposta pelos modelos das sociedades dominantes. Todos esses fatores juntos devem ser levados em conta para compreender como se dão as influências no modo das pessoas se organizarem em sociedade na busca da realização das promessas da modernidade e também para se situar frente à pós-modernidade ou modernidade tardia.
BIBLIOGRAFIA DE REFERENCIA
BAUMAN, Zygmunt. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Tradução: Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
BAQUERO, Marcelo. Um Caminho “alternativo” no empoderamento dos jovens: capital social e cultura política no Brasil. In. Democracia, Juventude e Capital Social no Brasil. Org. Marcello Baquero. UFRGS, Porto Alegre, 2004 p. 120 a 146.
COMBLIN, José, A Força da Palavra. “No principio havia a palavra”. Petrópolis: Vozes, 1986.
DOWBOR, Ladislau. Globalização e Tendências Institucionais. In: Desafios da Globalização. Organizadores: Ladislau Dowbor, Octavio Ianni, Paulo-Edgar A. Rezende. 3ª Edição. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 09-16.
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. Tradução: Raul Fiker. São Paulo: Editora Universidade Paulista, 1991.
GOMES, Plínio Freire, O mal-estar coletivo da pós-modernidade. Disponível em: www.jt.estadão.com.br/suplemento/saba/2001/09/15saba009.html. Acesso em set. de 2002.
IANNI, Otavio. A Política Mudou de Lugar. In: Desafios da Globalização. Organizadores: Ladislau Dowbor, Octavio Ianni, Paulo-Edgar A. Rezende. 3ª Edição. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 17-27.
MOREIRA, Alberto da Silva. Observações para uma sociologia da cultura pós-moderna e da religião. Súmula de um debate. Goiânia: Texto mimeo, 2004.
PACE, Enzo. Religião e Globalização. In ORO, Ari Pedro e Carlos Alberto Steil, Globalização e Religião. 2ª edição. Petrópolis: Vozes, 1999, 25-43.
PARKER, Cristián. Religião Popular e Modernização Capitalista. Outra lógica na América Latina. Tradução de Attílio Bunetta. Petrópolis: Vozes, 1996.
RICHARD, Pablo. Morte das Cristandades e o Nascimento da Igreja. Paulinas, São Paulo, 1984.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela Mão de Alice. O social e o político na pós- modernidade. 9ª Edição: São Paulo. Cortez, 2003.
THIELEN, Helmut. A crise da modernidade e o capitalismo atual. In: Além da modernidade? Para a globalização de uma esperança conscientizada. Petrópolis: Vozes, 1998.
TOURAINE, Alain. Crítica da Modernidade. Tradução: Elia Ferreira Edel. Petrópolis: Vozes, 1995.
ZAMORRA, José A. Modernidade – Identidade – Religião. Palestra: Resistir a desesperança. Seminário Ética e Religião em Th. W. Adorno. Goiânia, UCG, 2004.
Nenhum comentário:
Postar um comentário