sexta-feira, 2 de abril de 2010

JUVENTUDE E CULTURA PÓS-MODERNA

Lourival Rodrigues da Silva
Os/as jovens contemporâneos estão vivendo na crista da onda por causa da grande quantidade de jovens no Brasil. Todos estão atentos ao tema: Estado, sociedade, universidades, ONGs, partidos, igrejas, etc. são diversos interesses: medo da violência, necessidade de controle, necessidade de consumidores para o mercado, entender o comportamento, tê-los/as como aliados ideológicos, pesquisar por estar na moda... Estes interesses às vezes vêm carregados de um discurso ilusório de inclusão, consumo e diferenças.
As definições de juventude, ao longo da história, foram marcadas pelos paradigmas da forma de atuar com os jovens: muitos entendendo a juventude como período preparatório (escola); outros olhando a juventude como etapa problemática (conflitos, contenção); uns terceiros vendo a juventude como ator estratégico do desenvolvimento e um potencial que poderia ser amadurecido através de programas e projetos; e, por fim, a juventude cidadã encarada como sujeito de direitos que caminha para a autonomia. (ABRAMO, 2005 p. 20).
Os dados do inicio deste século apontavam que o perfil dos jovens brasileiros era de 21 milhões de adolescentes de 12 a 18 anos. Sendo que a juventude de 15 a 24 anos estaria na casa dos 34 milhões. Já os adultos jovens de 25 a 29 anos, categoria recente nos Brasil, seria de 13,8 milhões. Juntando jovens e adultos jovens (15 a 29 anos): 47 milhões (IBGE – 2000).
A Secretária Nacional de Juventude em seus documentos de preparação da Primeira Conferencia Nacional de Políticas Pública de Juventude divulgou que há hoje no Brasil 50,5 milhões de jovens na faixa etária de 15 a 29 anos. Sendo que 14,6 milhões moram em regiões metropolitanas. 25,4 milhões vivem em regiões não metropolitanas. 7,8 mil vivem em regiões rurais.
O Brasil vive desafios a serem enfrentados no que diz respeito as demandas e dívidas sociais com a juventude conforme os dados que se refere à educação temos hoje segundo a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicilio PNAD, 17,8 milhões de jovens estão na escola – sendo 4 milhões no Ensino fundamental, 8,3 milhões no Ensino Médio e 4,1 milhões no Ensino Superior. 11,5 milhões de jovens têm o Ensino Médio Completo. 6,4 milhões de jovens estão desempregados. Sendo que destes 4, 5 milhões não concluíram o ensino fundamental. 1,3 milhões de jovens são analfabetos (PNAD, 2003)
Quanto à situação ao emprego e trabalho 63 % dos jovens que trabalham não têm carteira profissional assinada (Instituto Cidadania, 2003). Dados da Unicamp, mostram que, em 1995, o desemprego atingia 13,9% dos jovens de 16 e 17 anos.
Os/as jovens enfrentam também o desafio das questões referentes a violência onde 63% dos/as jovens que vivem em regiões metropolitanas, têm a violência como maior problema para a juventude. Dos 70% do conjunto de mortes violentas entre os jovens de 15 a 24 anos, 39,2% são causados por acidentes de transito, homicídios. A taxa de homicídio entre jovens é duas vezes e meia maior que entre outros seguimentos etários. O índice entre jovens vitima de assassinato cresceu 81,6 % nos últimos 22 anos (UNESCO, 2002). Ao se considerar as pessoas jovens (com menos de 29 anos), o número de mortes violentas sobe para 35,6%. as vítimas preferenciais são do sexo masculino.
No entanto esses sujeitos buscam espaços de socialização em que possam se sentirem visibilizados e incluídos na sociedade. 28,1 % dos jovens participam de algum grupo (Ibase/polis, 2005). São 7 milhões de jovens que fazem ou querem fazer algum tipo de atividade em beneficio a sua comunidade (Instituto Cidadania, 2003).
A questão relacionada a família aponta também questões a serem levadas em conta sobre os/as jovens, pois dados apontam que 11,7 milhões de jovens vivem em famílias que não têm condições para satisfazer suas necessidades básicas (PNADA, 2003). Um quinto dos jovens tem filhos (Instituto Cidadania, 2003). 83 % dos jovens solteiros não pretendem sair ou vai esperar mais um pouco para deixar a casa dos pais (Instituto Cidadania, 2003).
Sobre as questões da cultura dados revelam que 85,8% dos jovens se informam por meio da televisão (Ibase/Polis, 2005). 78 % dos jovens nunca participaram da produção de informação em meios de comunicação (jornais, de escola, fanzines, TVs, rádios comunitárias, produção de vídeo, etc), (Ibase/Polis, 2005). 77,4 % dos jovens das classes D e E não sabem usar computador. Entre os jovens da classe A, essa taxa cai para apenas 12,5% (UNESCO, 2004).
Já a vivencia da sexualidade aponta também que 58% das meninas acham que a virgindade é importante e 63% dos meninos acham que é coisa do passado. 85% dos jovens são contra o aborto quando a mãe não desejar o filho. 18% consideram o homossexualismo uma doença e 30% dos jovens não gostariam de ter um homossexual como colega de classe. 47,1% dos jovens não gostariam de ter um homossexual como vizinho (UNESCO). Entre as meninas, “49% dizem não usar preservativo por manterem relações com quem confiam”. 25% se acham livres do risco de contrair o HIV (UNESCO, 2004).
Uma questão que se apresenta hoje é diferenciar o que é próprio do período etário juvenil e o que é fruto da atual sociedade. Especula-se que a juventude é uma presa fácil do mundo Pós-Moderno, e que estaria mais vulnerável às conseqüências destas transformações. O desafio é entender a cultura dentro deste momento de evolução tecnológica em que tudo tem um conteúdo visual e sonoro e que trafega por veículos e meios rápidos e que se tornam globais, impondo um mesmo padrão cultural e uma mesma matriz a todos/as.
O mundo atual é o tempo da comunicação e da informação. A realidade se apresenta como a era da informática, da civilização eletrônica, da imagem, do mundo da comunicação por vias virtuais. Essa nova era leva a juventude a construir seu imaginário dentro da cultura da imagem. Essas imagens são firmadas através de ícones e símbolos que se tornam mais expressivos a cada descoberta feita e desejada.
O padrão de consumo apresentado pela comunicação tem influência direta sobre a vida das pessoas, sobretudo da juventude. Os novos símbolos interferem na realidade em que os/as jovens se organizam e agem. As realidades, além de mais complexas, estão justapostas entre os fatos, as notícias, as particularidades e a fragmentação da sociedade. O mundo global coloca, através da Internet e suas redes de comunicação, uma infinidade de misturas de culturas, linguagens, códigos de comunicações e relações.
O mundo Pós-Moderno atua na cultura inculcando nos indivíduos que o importante para a comunicação é a pessoa se preocupar com sua imagem, aparecer e estar permanentemente preocupada com a sua autoconstrução. Esse modo de pensar e agir estão organizados e pensados para o individuo e, em especial, para o mundo juvenil. A mesma cultura de massa e de tecnologia não consegue garantir a todos/as o acesso ao saber, à cultura, ao lazer e ao desporto, pois a influência neoliberal prega um Estado mínimo, controlado pelo mercado.
Estado mínimo que faz com que este se ausente de seu papel de garantir os direitos básicos da população no que se refere aos serviços de segurança, saúde, transporte, lazer, educação, apresentando-se cada vez mais precários, insuficientes e mal distribuídos.
Os/as jovens têm, no seu horizonte, o desafio da busca do que lhe é desconhecido e ausente e a possibilidade do consumo se torna, para ele, uma janela de oportunidade. O consumo nunca descansa. Sempre surgem novos objetos desejáveis. A juventude se constituiu em um dos grupos que mais se sentem aguçados com a espera dos lançamentos do cinema, da TV, da informática. Eles/as acreditam e esperam, porque se identificam, reconhecem-se nela e no desejo que a propaganda cria.
Esse modelo econômico e midiático confunde os/as jovens, não lhes possibilitando diferenciar o que vem a ser desejo e o que são necessidades humanas. A mídia, aliada do mercado de consumo, desperta uma insatisfação que leva à exploração da vontade interna de ter o que o/a outro/a tem. Estimula a imitação de tudo que o/a outro/a possui. Causa o desejo mimético de ser o outro. Há quem diga que a comunicação educa para a mentalidade afirmativa – poder – superioridade; “eu narciso” num constante desejo de autoconstrução. Toda a sociedade e, em especial, os/as jovens, recebem a mensagem de que cada um dos seus membros tem a responsabilidade de se preocupar consigo mesmo (autocentramento).
A juventude inculca em seu sistema de compreensão e interação com o mundo um conjunto de satisfações pessoais. Quando não o consegue, experimenta uma insegurança generalizada. Para prevenir e impedir essa insegurança, a sociedade provoca um deslocamento da confiança nas relações de proximidade e intimidade para a relação técnica. Como resultado, há juventudes menos conceituais, analíticas e organizadas.
A cultura Pós-Moderna forja uma propaganda para que o indivíduo consuma o máximo possível. Nem todos/as os/as jovens, no entanto, conseguem ter acesso e condição de consumo como o mercado deseja. Cria-se, assim, nos jovens, uma ilusão de que tudo está à disposição de todos/as. Porém, pouquíssimos são aqueles/as que podem consumir tudo que ela propõe. A cultura midiática vende o que a sociedade está disposta a aceitar. É por essas razões que a juventude não pode ser deixada de lado na análise da comunicação, pois, por sua própria natureza, ela busca a curiosidade como elemento para se construir e se identificar socialmente.
Na temática da cultura Pós-Moderna o corpo ganha lugar de destaque, pois é por natureza um instrumento de comunicação. A etapa da juventude é um momento em que o corpo está cheio de vigor com capacidade de se expressar socioculturalmente. Sobre o corpo recai uma mensagem de interlocução constante, tornando-se um instrumento de comunicação visual. O tempo da juventude é entendido como potencialidades. Este tempo reflete diretamente em seus corpos. Com isso as pessoas adultas querem ter a vitalidade da juventude, desejam energia. Essa concepção de corpo juvenil está ligada à visão mecanicista de utilidade e capacidade. Ninguém quer ser velho ou incapaz. Hoje, tudo passa pela experiência, pela vivência dos sentidos e dos órgãos do corpo.
A sociedade moderna atua com a expectativa do estético. Investe no gosto da juventude, cria uma roupagem de modernidade e atua com propostas para que esse corpo esteja em evidência. No campo afetivo, a paquera, o “ficar” e as relações acabam sendo temporárias e sem compromissos. Os modos e os meios de produção geram sujeitos carentes e sem compreensão de sexualidade e afetividade. São aspectos reforçados pela cultura e pelas relações sociais. A psicologia evolutiva produz cultura, ritmos, espaços e símbolos da indústria cultural adultocêntrica. O corpo é máquina – horizonte do desejo da construção da identidade. O corpo juvenil é o que marca o tempo para satisfação dos desejos e das possibilidades do imaginário.
O corpo não pode ser reduzido ao horizonte do objeto do prazer e do disciplinamento de atitudes. Quando o prazer se torna um horizonte a ser conquistado pelos/as jovens e a sociedade moderna e pós-moderna impõe a forma de alcançá-los, provoca uma confusão na visão da juventude, fazendo crer que o gozo eterno não se encontra no cotidiano das relações, das descobertas, dos namoros ou dos afetos.
A juventude se constitui num mosaico de grande diversidade juvenil: raça, classe social e regionalização. Um rápido mapeamento da juventude urbana podemos encontrar diversas formas de socialização e seus grupos: torcidas organizadas, capoeiristas, jovens das igrejas (vários grupos e denominações), skaitistas, jovens punks, estudantes, trabalhadores/as, jovens em conflitos com a lei, meninos e meninas de em situação de rua, jovens portadores de deficiência, juventude do hip hop, jovens escoteiros/as, negros e negras, jovens feministas, LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais), roqueiros, jovens presentes nos grupos de teatro, de dança, poesia, música, jovens punks, adolescentes emos, metaleiros, underground, rappers. No entorno do urbano vamos encontrar também os jovens das zonas rurais/quilombola, ribeirinhos, indígenas, ciganos e ciganas, também identificados/as hoje como comunidades tradicionais.
As culturas, outrora consideradas rebeldes e opositoras, têm espaços legitimados nas tensões e reivindicações de demandas a partir de múltiplos discursos de participação juvenil. A diversidade juvenil ganhou capital simbólico que lhe deu reconhecimento de ordem estética, étnica, onde a exacerbação da singularidade se choca com a ilusão de inclusão.
Sempre que se pensa “nos jovens” as primeiras perspectivas que se apresentam são referentes a visibilidade social destes: tribos, bandos, rebeldes... O modo de vestir, circular, comportar e socializar desses sujeitos trazem demandas, linguagem, comunicação própria... A sociedade, através das instituições, quando não preparada para essa forma de visibilidade, reage com repressão, violência, condenação e estigmatização dos/as jovens.
Muitas instituições contribuem para que os/as jovens sejam vistos pela marca da violência e da vulnerabilidade, sendo condenados pela repressão ou por atitudes fundamentalistas (caso de algumas tendências religiosas). Por outro lado, ditando e restringindo o lugar da juventude (lazer, trabalho, cultura, saúde, escuta...), o estado não consegue garantir, por exemplo, escola próxima à moradia dos jovens.
As manifestações juvenis estão marcadas por expressões, pontos de disputas territoriais, contestação, encontros, conflitos e, sobretudo por relações de trocas. Neste território vão marcar suas reivindicações explicitas e implícitas de circulação, transporte, capacidade de consumo e busca de visibilidades.

REFERENCIA
1. ABRAMO, Helena Weldel. O uso das noções de adolescência e juventude no contexto brasileiro. In: FREITAS, Maria Virgínia. Juventude e adolescência no Brasil: referencias conceiturais. 2ª Edição. Ação Educativa, São Paulo, 2005.
2. CNBB, Conferencia dos Bispos do Brasil. Evangelização da Juventude. Doc. 85. Paulus, São Paulo, 2007.
3. ESCOBAR, Manuel Roberto, MENDONZA, Nydia Constanza. Jovens Contemporâneos: Entre la heterogeneidad y lãs desigualdades. Revista Nómadas. Instituto de estúdios Sociales Contemporâneos – Universidad Central. Buenos Aires, 2005.
4. PNADA, 2003, disponível em http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/populacao_jovem_brasil/default.shtm
5. IBGE 2008 disponivel em http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/tabela/protabl.asp?z=pnad&o=3&i=P
6. Pesquisa UNESCO, divulg(PNADA, 2003).ada em setembro de 2004.

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